Sem caixote do lixo? Como é que isso é possível?

A pergunta é recorrente e quase sempre feita com um ar de espanto. Como é possível um restaurante não ter caixote do lixo? Não vamos mentir: não é nada fácil. O sistema está montado para nos levar a produzir lixo – quilos e quilos de lixo. Mas está longe de ser impossível e a nossa história é prova disso mesmo. Simplesmente requer esforço, persistência, flexibilidade, criatividade e vontade de sair da zona de conforto.

Trabalhar sem um caixote do lixo obriga-nos a repensar tudo desde a raiz. Os ingredientes chegam-nos directamente dos produtores, cujas terras fazemos questão de conhecer, em recipientes reutilizáveis – caixas, sacas, latas, frascos, boiões. E vêm de perto, muito perto. A esmagadora maioria dos vegetais e da fruta é produzida a menos de 50 km desta casa, em Telheiras. Para outros ingredientes, como cereais, leguminosas ou frutos secos, temos de alargar o raio, mantendo sempre esta consciência de proximidade. De fora ficam ingredientes que forçosamente viajariam muito até chegar cá, como café, cacau, especiarias ou caju, e que por isso têm uma pegada de carbono altíssima. O mesmo acontece com alguns produtos que, mesmo existindo em Portugal, não teriam forma de chegar até nós sem haver desperdício pelo meio.

Regresso às raízes

Moemos os nossos cereais. Preparamos os nossos próprios adoçantes. Fermentamos vegetais e fruta para alcançar sabores mais complexos. Vamos à procura de variedades tradicionais no passado mas entretanto esquecidas, em detrimento de novas variedades – mais produtivas, mais previsíveis, mas também menos adaptadas ao nosso clima e aos nossos solos. É o caso, por exemplo, do trigo barbela com que fazemos o nosso pão de fermentação natural.

Pensamos as ementas com o que está disponível no momento, em sintonia com o que a terra nos dá e com a confiança de que semana após semana os nossos produtores nos trarão o melhor dos seus terrenos. Em troca, entregamos-lhes o nosso composto, um elemento precioso para devolver ao solo uma mistura concentrada de nutrientes, 100% natural.

Kitchen Dates – Eva

Apresentamos-te a Eva, a nossa compostora eléctrica.

É o resultado quase mágico de um processo de transformação de matéria orgânica num ciclo de 24 horas, através de um compostor eléctrico – a Eva – que está à vista de todos no corredor. Demos-lhe este nome inspirados numa personagem do filme de animação WALL-E. Nele, um robô de nome Eva anda pela Terra à procura de sinais de vida, numa altura em que o planeta está completamente deserto e coberto de lixo. A nossa Eva, por sua vez, dá uma nova vida àquilo que já não conseguimos de todo aproveitar.

Aqui, as preocupações estendem-se além da comida. A mesa única foi feita a partir de sobras de madeira. Temos cadeiras em segunda mão, talheres e copos doados pela nossa comunidade. Na casa de banho há um sistema que reaproveita água do lavatório para as descargas da sanita. Não temos gás, tudo funciona a energia eléctrica – oriunda de fontes 100% renováveis.

Por um mundo mais consciente, saudável e sustentável.

O lixo é uma criação do Homem. Sem ele o planeta estaria em perfeito equilíbrio. A nossa postura perante a Terra, sobretudo desde a Revolução Industrial, tem-nos conduzido para um buraco negro de consequências sem fim. Todos os dias geramos montanhas de lixo, sendo grande parte dele perfeitamente evitável. Isso aplica-se também à comida. Todos os anos, cada português deita fora 132 kg de comida. É chocante, não é?

Há inúmeras razões para que isso aconteça, algumas mais óbvias do que outras. Compramos demasiada comida, que depois fica esquecida e a apodrecer no frigorífico ou algures na despensa. Por desconhecimento, deitamos fora logo à partida partes de alimentos que podem ser aproveitadas – e que às vezes são até mais saborosas do que a parte que efectivamente usamos. Sabes, por exemplo, qual é o pedaço mais saboroso do alho francês? Não é a parte branca, não é a parte verde… são as barbas!

O que podemos então fazer?

É urgente pararmos para pensar na origem dos nossos alimentos, na forma como são produzidos e como nos chegam às mãos. Tudo isso tem impacto no nosso ambiente. Se podemos comprar amêndoa em Trás-os-Montes ou no Algarve, precisamos mesmo de comprar caju da Índia, do Brasil ou de Moçambique? Quem nos segue há mais tempo sabe que já usámos caju em larga escala nos nossos eventos e nos nossos produtos, em especial no semi-curado. Mas com o tempo chegámos à conclusão de que não era viável nem sustentável seguir esse rumo. Pelo contrário, sentimos cada vez mais uma responsabilidade maior em valorizar o que é produzido cá, de forma consciente, para que não se perca nem se transforme num mero objecto comercial.

Evoluímos e vamos continuar a fazê-lo, sempre com um objectivo em mente: criar um mundo mais consciente, saudável e sustentável. Queremos incentivar e inspirar todos à nossa volta a caminhar na mesma direcção. Connosco.

A nossa história.

Kitchen Dates – Maria & Rui

Tudo começou na Holanda. Vivíamos em Amesterdão e demos por nós a olhar para o pão que estava à nossa disposição e a pensar: por que raio há aqui uns dez ingredientes? Não deveria o pão ser apenas farinha, água e sal? O que começou como uma mera interrogação acabou por se transformar numa mudança drástica de filosofia de vida, de hábitos de consumo, de gostos e até de carreira profissional.

Numa primeira fase abandonámos progressivamente todo o tipo de produtos processados. Afinal, se o pão era uma confusão de ingredientes, o que seria de tudo o resto? Decidimos então começar a tentar fazer tudo de raiz. E pelo caminho, com muito estudo, deixámos para trás a carne vermelha, depois a branca, mais tarde o peixe e o marisco e por fim ovos e lacticínios. Quando demos por nós tínhamos uma alimentação 100% vegetal, mais em linha com os novos princípios que abraçávamos.

Foi um período de inúmeras experiências na cozinha – muitas delas fracassadas (nem queiras imaginar os primeiros pães que saíram do nosso forno!). E uma reeducação do nosso palato, (re)descobrindo sabores menos comuns e abrindo horizontes. Com tanta novidade nas nossas vidas, os amigos e a família começaram a fazer cada vez mais perguntas. Para responder a isso criámos uma conta no Instagram e chamámos-lhe Kitchen Dates. Hoje em dia o nome até bate certo com aquilo que fazemos, mas na altura era um mero encontro a dois na cozinha.

E se recebêssemos pessoas em nossa casa?

A nossa história mudou para sempre no dia em que um casal amigo, que também vivia em Amesterdão, nos lançou um desafio: abrir a porta de nossa casa a estranhos para provarem a nossa comida. Como gostávamos muito de cozinhar e queríamos mostrar aos outros as virtudes deste estilo de vida, na cabeça deles fazia todo o sentido darmos esse passo. Nós, introvertidos por natureza, quase nos assustámos. Foram precisos meses até que decidíssemos avançar. Hoje podemos dizer que foi uma das melhores decisões das nossas vidas. Nada do que aconteceu desde então teria aparecido no nosso caminho se não fosse aquele primeiro brunch para quatro pessoas em Amesterdão, em Fevereiro de 2017.

Estamos eternamente gratos a todos os que se cruzaram connosco desde então e que fizeram dos Kitchen Dates aquilo que são hoje em dia. Mas guardamos um lugar especial no coração para os que contribuíram para a nossa campanha de crowdfunding. Nesta página encontras todos os nomes dos elementos da família Kitchen Dates.