Nem tudo no chocolate é doce

A produção de cacau, uma das mercadorias mais cobiçadas em todo o mundo, está longe de ser transparente. Por trás dos bons momentos que o chocolate alimenta está uma teia complexa de problemas, que inclui escravatura moderna, trabalho infantil e impactos ambientais relevantes.

Gelado de chocolate num pau

📅 Publicado a 7 de Dezembro de 2022
🖊️ Rui Catalão

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Quando o assunto é escravatura moderna, é inevitável acabarmos a falar de cacau e chocolate. Bem sabemos que estamos em época natalícia, e que é uma época de paz e amor, mas vamos aproveitar a oportunidade para trazer para o centro da discussão um dos produtos que culturalmente mais associamos ao Natal. 

Nos próximos dias é provável que dês por ti a comer ou a comprar chocolate para oferecer a alguém, por isso esperamos que esta newsletter te ajude a fazê-lo de forma mais consciente.

Só para garantir que estamos todos no mesmo pé, vale a pena começar por explicar que o chocolate é o resultado do processamento do cacau – mais concretamente dos grãos que estão dentro do fruto. Protegidos por uma polpa doce, esses grãos são em primeiro lugar fermentados (tradicionalmente em folhas de bananeira) para destruir a camada que protege a semente, matar o gérmen e conferir ao cacau um sabor agradável. Depois têm de secar ao sol, antes de serem transportados.

Apesar de ter surgido primeiro na América Central, a grande maioria da produção mundial de cacau está em África, em particular no Golfo da Guiné. Por si só, a Costa do Marfim é responsável por cerca de 40% do total. Se somarmos a esses números os do Gana, vizinho do lado, a quota de mercado ultrapassa os 60%. E mais a este estão outros dois países relevantes no sector – os Camarões e a Nigéria. No top 5 há um só país sul-americano: o Equador, em terceiro lugar.

Ao apontar a lupa ao que se passa na Costa do Marfim e no Gana, é difícil ficarmos indiferentes. São países que dependem em grande escala das exportações de cacau – representa 15% do PIB costa-marfinense e 2/3 de todo o emprego no país. Para milhões de famílias o cacau é a tábua de salvação para uma vida digna. Ou pelo menos deveria ser.

Na realidade, os produtores de cacau são o elo mais fraco de uma longa cadeia que inclui muitos actores e intermediários. Regra geral, os grãos de cacau são processados e transformados em chocolate já na Europa ou nos EUA. Da colheita até ao momento de prazer em que o chocolate derrete na tua boca, o cacau passa por muitas mãos. Cada uma fica com a sua fatia da receita, mas invariavelmente apenas uma ínfima parte fica no produtor.

O cacau é uma commodity. Ou seja, é um bem tratado como sendo homogéneo, independentemente da sua origem. Está sujeito a flutuações no preço de mercado global em função de variações na oferta e na procura. É comprado e vendido com base em contratos que prevêem a sua entrega ou disponibilização no futuro (tal como acontece, por exemplo, com o petróleo ou com o café).

Por norma, isso faz com que o preço seja imposto ao agricultor, que tem pouco poder negocial para exigir uma remuneração mais alta – no limite, o comprador tem muitas outras portas onde ir bater para obter o mesmo produto.

A exploração desta dinâmica até à exaustão tem levado todo o sector a bater no fundo. Como resultado, entre 73% e 90% dos agricultores na Costa do Marfim e no Gana não recebe sequer o equivalente ao rendimento mínimo. E mais de metade destes estará mesmo abaixo da linha de pobreza extrema. 

Sem soluções, estas famílias vêem-se perante escolhas duríssimas. Como os pais não ganham o suficiente para sustentar, os filhos são afastados da escola e empurrados para situações de trabalho infantil – estima-se que sejam mais de 1,5 milhões de crianças nesta condição.

Ao mesmo tempo, a precariedade de todo o sector abre caminho a situações reais de escravatura moderna, que atingem pelo menos 30 mil pessoas na Costa do Marfim e no Gana. E o problema não é de agora. O mundo ficou a conhecê-lo pela primeira vez em maior profundidade em 2000, com um documentário da BBC que relatava, entre outros casos, a realidade das plantações de cacau na Costa do Marfim.

É sobre estes alicerces que toda a estrutura do negócio do chocolate se montou ao longo das décadas. Gigantes como a Mars, a Nestlé ou a Mondelez sustentam as suas operações em cacau que está manchado desde logo pelo desrespeito pelos direitos humanos.

Hoje em dia, o preço à saída da plantação ronda 1,25 a 1,35 dólares por quilo. Em bolsa, depois de passar por alguns dos intermediários, o valor já vai no dobro. E daí em diante continuam a ser feitas contas de somar, sem que isso favoreça de alguma forma o produtor.

Em 2019, os dois maiores países produtores de cacau decidiram agir. Costa do Marfim e Gana introduziram um sistema de preço fixo, que definiu um mínimo que assegurasse o sustento do produtor. A esta medida chamaram Living Income Differential (em português, algo como Diferencial do Rendimento Mínimo). O impacto fez-se sentir de imediato, com um aumento de cerca de 30% no rendimento (de alguns) dos agricultores.

O problema é que várias empresas recusaram (e ainda recusam) pagar esse extra, em vigor desde a campanha de 2020-21. Com a pandemia como justificação inicial, forçaram a mão para que houvesse um desconto no preço, o que se traduziu na anulação do tal rendimento adicional. Insatisfeitos, os responsáveis costa-marfinenses e ganeses prometeram revelar os nomes das marcas em questão caso a situação não fosse revertida. Até agora, isso ainda não aconteceu.

A outra catástrofe: desflorestação

Os custos sociais do chocolate que consumimos hoje em dia em grande escala são evidentes. E os ambientais não ficam atrás. Por aqui já escrevemos muito sobre o impacto do consumo de produtos de origem animal – e de como a sua pegada é exponencialmente superior à de praticamente todos os alimentos de origem vegetal. Ora, o chocolate é uma excepção.

Gráfico: emissões de gases com efeito de estufa dos alimentos ao longo da cadeia de produção

Na verdade está quase no topo dos alimentos com emissões mais elevadas, logo atrás da carne de vaca, de borrego e do queijo. Não é por ser uma cultura particularmente exigente no que diz respeito à utilização de fertilizantes ou pesticidas, ou até mesmo porque implica o transporte de longas distâncias (feito em grande parte por via marítima). É, sim, porque para estabelecer plantações de cacau são dizimadas largas áreas de floresta.

Em pouco mais de 50 anos desapareceram mais de 80% das florestas tropicais costa-marfinenses. Neste período, 200 das suas 244 áreas protegidas foram destruídas em mais de 90% da sua área total, com as plantações de cacau a ter um papel preponderante. Muitas destas plantações instalam-se ilegalmente na floresta, queimando e cortando árvores. No Gana, a velocidade de desflorestação tem sido ainda mais vertiginosa.

Isto leva a dois fenómenos igualmente preocupantes. Por um lado, a alteração do uso do solo (de floresta para plantação de cacau) representa um volume de emissões de dióxido de carbono bastante significativo. É, aliás, daqui que vem a insustentabilidade ambiental do chocolate. Por outro, arrasar estas florestas significa também a destruição do habitat natural de muitas espécies de animais selvagens, em particular elefantes e primatas, numa verdadeira crise de biodiversidade.

É fácil olharmos para o problema e dizermos que a solução passa simplesmente por deixar de cortar e queimar floresta virgem para instalar plantações de cacau – tal como acontece com o café, ao qual também já dedicámos uma newsletter. Mas o drama é mais complexo do que isso. 

Para um agricultor pobre, não é difícil tomar uma decisão quando as hipóteses são sustentar a família ou preservar a floresta. A escolha é óbvia.

A responsabilidade tem de estar do lado de quem compra e perpetua a pobreza daqueles que produzem uma matéria-prima tão preciosa. À boleia do interesse generalizado na sustentabilidade, quase todas as empresas do sector têm prometido e anunciado programas de apoio a estas regiões, que passam pelo combate à desflorestação, à escravatura e ao trabalho infantil.

Não raras vezes, as grandes promessas desses programas de responsabilidade social traduzem-se em pouco mais do que numa sessão única de formação sobre produtividade. A formação é oferecida, mas de pouco serve, já que os agricultores não têm como suportar os custos com mão-de-obra adicional ou com fertilizantes para alcançar os tais ganhos de produtividade.

Ao contrário de muitos outros sectores, como o dos cereais, no cacau as práticas agrícolas persistem quase inalteradas há muitas décadas. A colheita é feita com um machete – uma faca de mato que permite separar o fruto da árvore com facilidade. Uma árvore dá cerca de 30 frutos por ano, o suficiente para fazer perto de 1 kg de chocolate.

União Europeia dá um passo importante

Ontem foi aprovada uma nova lei europeia para travar a importação de produtos ligados a práticas de desflorestação. É uma medida que pode ter um impacto tremendo nas cadeias de abastecimento de muitos produtos, incluindo o cacau. Isto, claro, além de contribuir para a redução das emissões de gases com efeito de estufa e para a perda de biodiversidade.

No fundo, as empresas ficam obrigadas a provar que fizeram a diligência devida para garantir que as suas operações não estão associadas a desflorestação. Isso inclui a recolha de informações geográficas precisas sobre as terras onde estes produtos são cultivados.

Assim que a norma entrar em vigor, os operadores económicos têm um prazo de 18 meses para se adaptarem. Micro e pequenas empresas terão um período mais alargado e algumas regras mais específicas.

De fora da lei da desflorestação ficam, no entanto, as preocupações com os direitos humanos. Fica também todo o sector financeiro, essencial ao financiamento de muitas destas actividades económicas, e cuja exclusão do texto final pode comprometer a concretização desta iniciativa ambiciosa.

Então e a água?

É comum encontrarmos números alarmantes quanto ao volume de água necessário para produzir uma tablete de chocolate. Aliás, em teoria, um quilo de chocolate teria uma pegada hídrica superior à de um quilo de carne de vaca. Na prática, não é bem assim que funciona.

As plantações de cacau estão concentradas em latitudes tropicais, onde a chuva (por enquanto) abunda. As necessidades de irrigação são nulas (salvo em algumas excepções), o que faz com que a pegada hídrica do chocolate esteja essencialmente associada às fases seguintes da cadeia – incluindo o transporte e o embalamento, mas também o leite, quando utilizado. 

Em todo o caso, a utilização efectiva de água doce (que não a da chuva, entenda-se) é bastante baixa quando comparada com outros alimentos: dez vezes menos do que o queijo (por quilo de produto), oito vezes menos do que os frutos secos e quase três vezes menos do que a carne.

Gráfico: água doce usada por quilo de vários alimentos

Este estudo, embora olhando especificamente para o caso da Colômbia, faz uma análise que será extensível à maioria dos países produtores de cacau.

O papel das certificações

Provavelmente já reparaste nos logos que vêm nas tabletes de chocolate ou nas caixas de bonbons que compras (ou recebes no Natal). UTZ e Rainforest Alliance (que em 2018 se fundiram numa só organização) ou Fairtrade são alguns dos selos mais comuns no sector do chocolate. 

Qualquer destas certificações visa criar uma economia mais sustentável para os produtores, sobretudo através de preços mais altos. Os benefícios em comprar produtos com estes selos são reais, mas não têm sido suficientes para tirar os agricultores da pobreza nem para aumentar os salários dos seus trabalhadores.

Há uma empresa a assumir um papel de liderança na luta contra as desigualdades no sector do cacau: a Tony’s Chocolonely. Tem uma missão muito clara – que todo o chocolate do mundo seja 100% livre de trabalho escravo.

Para esse efeito, tem trabalhado ao longo de toda a cadeia para combater muitos dos problemas associados: a baixa remuneração dos produtores, a falta de transparência quanto à origem dos grãos de cacau, as práticas agrícolas, etc.

Conhecemos a Tony’s já há muitos anos, desde os nossos tempos a viver na Holanda, onde a empresa foi fundada e começou por vender as suas tabletes. Fundada em 2005, tem vindo a crescer no mercado europeu, além de já ter expandido para os Estados Unidos. Além de cuidar criteriosamente da sua própria cadeia, a empresa holandesa criou uma espécie de certificação própria que põe ao dispor de outras marcas que queiram seguir as suas pisadas. A Tony’s Open Chain assenta em cinco princípios:

  1. Rastreabilidade do cacau
  2. Preço mais elevado (acima até das certificações já existentes)
  3. Produtores mais fortes (através do apoio a cooperativas)
  4. Compromisso a longo prazo (contratos de abastecimento de pelo menos cinco anos)
  5. Produtividade, diversificação de culturas e qualidade

Além de já ter como parceira a principal cadeia de retalho dos Países Baixos (Albert Heijn), que vende chocolate de marca própria com o selo da Open Chain, a Tony’s está também a trabalhar com a Ben & Jerry’s e com o Aldi. Em Portugal encontras uma linha específica, Choceur Choco Changer, que além da certificação Fairtrade obedece ainda aos princípios da Tony’s.

Quanto aos chocolates da Tony’s, por cá já apareceram ocasionalmente no Continente e costumam estar disponíveis em lojas online e físicas dedicadas a produtos especiais, como é o caso da LivGood ou da Flavers.

Queres saber que chocolate não deves mesmo comprar? Podes consultar o Chocolate Scorecard, da Be Slavery Free. Pista: se seguires à risca a tabela, este Natal não vai haver ninguém a dizer merci.