Ilustração de uma pessoa a olhar para um solo seco e gretado

Solo: enquanto a casa arde, o chão está a desabar

O solo é um elemento absolutamente precioso à nossa vida na Terra, e a sua degradação está a acelerar. O que se passa debaixo dos nossos pés? E pode a agricultura regenerativa ajudar a recuperá-lo?

📅 Publicado a 10 de Janeiro de 2023
🖊️ Rui Catalão

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Secas e cheias andam na verdade de mãos dadas. Ou seja, períodos mais longos de seca tornam o impacto das chuvas ainda mais visível.

Como é que isso acontece? Quando seca em demasia, o solo perde a sua capacidade de absorver água, que por sua vez escorre a grande velocidade e se acumula em zonas mais baixas ou acaba em rios ou no mar.

Começamos por aqui para te falar desse elemento absolutamente precioso à nossa vida na Terra: o solo.

Temos tendência a vê-lo como uma chatice, como sinónimo de sujidade ou nojo (basta ver a repulsa com que muitos sentem quando se deparam com um escaravelho ou uma minhoca), como um mero veículo ao nosso dispor para cultivar espécies de plantas para nosso próprio benefício.

Mas o solo não é nada disso. Nem sequer existe simplesmente para nos permitir produzir comida.

O solo é, sim, um conjunto de estruturas incrivelmente complexo. É composto por minerais, água, ar e matéria orgânica e está no topo das variáveis mais essenciais à vida na Terra. Se pegares num pedaço (saudável) de solo, vais ter na tua mão mais organismos vivos do que os 8 mil milhões de humanos que hoje habitam o planeta – e, na verdade, mais do que todos aqueles que já aqui viveram.

A lista de serviços que o solo nos presta é quase interminável. Sem (um) solo (saudável) não há alimento, não há água pura para bebermos, não há resiliência perante cheias e secas. É uma fonte importante de sequestro de dióxido de carbono – aquele que precisamos desesperadamente de retirar da atmosfera.

Na verdade, o solo é o segundo maior sumidouro de carbono da Terra, a seguir aos oceanos. Retém mais carbono do que toda a vegetação do planeta e mais do dobro do que existe na atmosfera.

A ciência do solo

As plantas usam a luz solar como fonte de energia, removem dióxido de carbono da atmosfera, transformam-no em açúcares e crescem com base na sua utilização. Uma boa parte desses açúcares desce até às raízes, onde alimenta os microorganismos (bactérias, fungos) no solo, que por sua vez disponibilizam minerais (ferro, fósforo, etc.) às plantas. Como parte do seu trabalho, os microorganismos constroem e reconstroem a própria estrutura do solo, tornando esse sequestro de carbono mais eficiente.

Esquema do ciclo do carbono no solo: a planta capta CO2 e luz solar, os açúcares descem até às raízes e alimentam bactérias e fungos, que libertam minerais para a planta e ajudam a guardar carbono no solo

Porque é que a degradação do solo é um problema?

Infelizmente estamos a tratar muito mal os nossos solos.

Com o advento da Revolução Agrícola – e mais tarde da Revolução Industrial –, avançámos para a desflorestação de vastas áreas, para o uso do solo até à exaustão (por exemplo, sem rotação de culturas ou pousio) e para a aplicação de fertilizantes, herbicidas, pesticidas e fungicidas, para garantir que só as plantas que queríamos ver crescer tivessem essa oportunidade. Ao mesmo tempo, a intensificação do pastoreio reduz a cobertura do solo, potencia a erosão e a compactação por efeito do vento e da chuva.

O resultado tem sido catastrófico. As práticas agrícolas de hoje aceleram a erosão do solo, matam os microorganismos que nele vivem e libertam a água e o carbono que de outra forma estaria guardado a sete chaves debaixo dos nossos pés. O solo perde toda a sua estrutura, compacta-se e transforma-se em pó. É aquilo que normalmente conhecemos como desertificação – ou seja, terra que se torna um deserto.

Uma espécie que simboliza esta crise é a das minhocas, que funcionam como pequenas lavradoras subterrâneas. Criam túneis para melhorar a penetração das raízes das plantas e a permeabilidade do solo, além de se alimentarem de matéria orgânica. O resultado dessa transformação é o húmus, uma forma mais estável de matéria orgânica – capaz de reter uma grande quantidade de água, que pode depois ser libertada em tempos de seca. Só que as minhocas estão a desaparecer com a destruição do habitat e com elas desaparecem também os benefícios do seu trabalho.

Temos solos mais pobres, menos férteis, que por sua vez levam os agricultores a usar mais fertilizantes químicos para conseguirem continuar a produzir alimentos. Este círculo vicioso de proporções dramáticas está a contribuir significativamente para agravar o fenómeno das alterações climáticas, que por sua vez estão a comprometer ainda mais a saúde do solo – e, por arrasto, a nossa própria saúde.

Feitas as contas, a desertificação afecta já um quarto da superfície terrestre e erodiu dois terços das terras agrícolas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que 90% da camada superficial do solo está em risco de desaparecer até 2050. Nos últimos 150 anos perdemos quase metade desta camada.

Esta camada superficial, onde está a maior concentração de matéria orgânica e microorganismos, é responsável por 95% de todos os alimentos que comemos.

Regra geral, são precisos mais de 100 anos (em alguns casos muito mais do que isso) para recuperar um centímetro de solo degradado ou perdido. Por essa razão, muitos especialistas consideram o solo um recurso não renovável. E há zonas do planeta onde essa degradação está a acontecer a um ritmo muito mais vertiginoso do que a capacidade de regeneração.

Como podemos conjugar a produção alimentar para satisfazer as necessidades de 8 mil milhões de pessoas ao mesmo tempo que conservamos e regeneramos o solo?

As receitas para um solo saudável

A mobilização do solo é um dos primeiros factores a ter em consideração. Lavrar menos ou não lavrar de todo está entre as mudanças que mais contribuem simultaneamente para reduzir a libertação de CO2 e evitar a degradação do solo (e de todas as formas de vida que dele dependem).

Em paralelo, garantir uma cobertura constante do solo (com plantas ou palha) reduz a sua erosão. Se essa cobertura for feita com culturas capazes de fixar azoto no solo, como acontece com as leguminosas, estamos em simultâneo a adubar a terra sem recurso a químicos de síntese – que agravariam a deterioração do solo. São os chamados adubos verdes.

Igualmente importantes são a rotação de culturas (não cultivar o mesmo tipo de alimento na mesma área em campanhas sucessivas, deixando até um intervalo de vários anos) e a consociação (conciliar culturas que trazem benefícios mútuos).

O que é a agricultura regenerativa?

Estas ideias estão no centro daquilo que hoje se conhece como agricultura regenerativa. O termo surgiu nos anos 80 nos Estados Unidos da América, mas ganhou mais força desde 2013, quando Allan Savory, um biólogo do Zimbabué, deu uma TED Talk sobre a sua visão para o combate às alterações climáticas. As alegações de Savory não têm uma base científica assim tão sólida – aliás, o próprio diz que “o método científico nunca descobre nada”.

A agricultura regenerativa não vai resolver todos os problemas do sistema alimentar. Tem, sim, o potencial para desempenhar um papel importante na sua transformação.

E os animais?

Falta abordar um lado inevitável desta discussão: os animais. Praticamente todos os projectos de agricultura regenerativa incluem-nos como parte importante do sistema – alimentando-se em pastagens (de forma controlada) e contribuindo com estrume para adubar a terra até serem abatidos para consumo.

Tal como no caso de Savory, ele próprio produtor de gado, é bastante possível que alguns dos impactos positivos destas práticas sejam substancialmente menores do que os alegados. Um relatório da Food Climate Change Network, um think tank da Universidade de Oxford, analisou os regimes de pastoreio com a lupa (exclusiva) das emissões de gases com efeito de estufa (GEE). E a conclusão é muito menos entusiasmante: os contributos positivos dos animais são em boa parte cancelados pelos negativos (precisam de áreas maiores para pastar e emitem mais metano – porque vivem mais tempo). No máximo, compensariam em 60% as emissões de GEE face à pecuária intensiva.

O mesmo relatório conclui que seria possível fornecer 20 g de proteína animal (entre carne e derivados) por pessoa/dia num mundo com 9 mil milhões de pessoas aproveitando a capacidade dos ruminantes de consumir resíduos orgânicos e sub-produtos (aquilo a que o relatório chama ‘sobras ecológicas’) para reciclar nutrientes, sem com isso ter efeitos ambientais negativos.

Em Portugal existe um sistema propício a concretizar este cenário: o montado. No entanto, é hoje evidente que está sob pressão, com o aumento do número de animais, o sobrepastoreio e a redução da própria área de montado – sobretudo porque as árvores que vão morrendo não vão sendo repostas.

O desafio de cuidar do solo é comparável ao do combate às alterações climáticas, no sentido em que é preciso mexer em diferentes alavancas em simultâneo para chegar a uma resposta eficaz. A urgência tem, no entanto, de ser a mesma: enquanto a casa (Terra) arde, o chão (solo) está a desabar.