A soja que todos comemos
Sabias que em média consumimos 55 kg de soja por ano? E que quem come grandes quantidades de carne tem um consumo de soja mais elevado? Parece-te confuso? Lê o resto do artigo e vais perceber o que está em causa.

📅 Publicado a 31 de Janeiro de 2023
🖊️ Rui Catalão
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Não será exagero dizer que é a leguminosa mais incompreendida do planeta. Embora seja familiar do feijão, do grão-de-bico, do tremoço ou das lentilhas, não goza da mesma reputação dos seus pares – que, flatulência à parte, só recebem louvores. Como é que chegámos aqui? O que é que fez da soja um dos maiores inimigos públicos na alimentação?
Vamos à procura de respostas.
Esta viagem tem de começar na desflorestação. A par do óleo de palma (outro vilão), a soja ganhou fama de ser responsável pelo abate de florestas, incluindo partes da Amazónia. A produção desta leguminosa cresceu quase 600% nos últimos 50 anos – hoje está acima dos 350 milhões de toneladas por ano, o que poderia explicar essa reputação.
Parte deste crescimento foi sustentado por aumentos na produtividade(+1300%) da cultura em si, mas outra fatia corresponde de facto a uma expansão das áreas cultivadas (+400%). Hoje em dia, dois países produzem 69% de toda a soja do mundo: Estados Unidos da América e Brasil. Se juntarmos a Argentina a este bolo, o número sobe para 80%.
Há várias formas de olhar para a questão da desflorestação. É importante explicar que a produção de culturas de valor comercial como a soja está longe de ser a principal razão (directa) para o ataque à floresta amazónica. O troféu vai para as pastagens dedicadas à criação de gado, essas sim a maior causa de desflorestação na região. O que não quer dizer que o impacto da produção de soja não seja substancial, em particular noutras zonas do Brasil e até noutras partes do mundo.
Em regiões como Mato Grosso, a soja está a substituir pastagens, que por sua vez podem estar a mudar-se para zonas onde o abate florestal ainda está a acontecer para abrir caminho à exploração animal. Ou seja, é uma relação muito mais complexa do que aquilo que parece à primeira vista.
O projecto MapBiomas faz um trabalho incrível de mapeamento e monitorização das transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Não há em mais nenhuma parte do mundo uma ferramenta tão completa, ainda por cima disponível de forma pública e gratuita. O seu mais recente relatório apresenta uma série de conclusões relevantes:
- entre 1985 e 2021, 13,1% da vegetação nativa do Brasil foi destruída para ser ocupada pela agropecuária;
- a agropecuária corresponde a 1/3 de toda a área alterada por acção humana no Brasil;
- as áreas agrícolas cresceram 228% desde 1985 e hoje representam 7,4% de todo o território brasileiro.
Apontando a lupa, o MapBiomas conclui que a soja ocupa 4,3% do país, numa área equivalente a toda a República do Congo e superior a países como Itália, Vietname ou Malásia. A expansão da soja é especialmente preocupante no Cerrado, a savana mais rica do mundo em biodiversidade, onde já conquistou 10% da área total.
A partir daqui é fácil concluir que há um problema real com a produção de soja. Mas antes de culpar o crescente interesse em bebidas ou iogurtes de soja, em tofu ou tempeh, ou até nos tradicionais miso e molho de soja, convém olhar para o destino da produção desta leguminosa.

Ora, mais de três quartos (77%) de toda a soja produzida no mundo é encaminhada para alimentação animal. E dentro desta categoria destaca-se a produção de aves (37% do total), seguida da alimentação de porcos (20,2%). Apenas um em cada cinco quilos de soja segue directamente para consumo humano – e mais de metade disso é em óleo vegetal.
Antes que o preconceito possa levar-te a questionar a transferibilidade destes números para o contexto europeu, importa perceber que 88% de toda a produção de soja na União Europeia é destinada à alimentação animal. Além disso, há provas de uma ligação directa entre desflorestação ilegal na Amazónia e no Cerrado e importação de carne bovina e soja na UE. A legislação europeia aprovada em Dezembro no âmbito do Pacto Ecológico visa combater esta realidade – resta ver como será aplicada e fiscalizada.
A soja que há em nós
No limite, o problema não está na soja em si mas sim nos nossos padrões alimentares, que incentivam à sua produção em larga escala. A soja está, de facto, em muito daquilo que comemos no dia-a-dia. Os números de um estudo recente encomendado pela WWF são esclarecedores: em média, um cidadão da União Europeia (+ Reino Unido) ingere 54,9 kg de soja por ano como consequência do consumo de produtos de origem animal (carne, lacticínios, ovos e peixe de aquacultura). A somar a isso são 3,5 kg de consumo directo de soja e de óleo de soja, enquanto a utilização de óleo de soja para biodiesel corresponde a 2,3 kg per capita. Feitas as contas, são 60,6 kg de soja por pessoa/ano.
Podemos reduzir estes números a uma dimensão mais simples e fácil de compreender: em 100 g de peito de frango que chegam ao teu prato foram usados 96 g de soja em ração ao longo do ciclo de vida do animal – mais ou menos o mesmo que em 100 g de salmão(95 g de soja).

A soja é de longe a fonte de proteína mais eficiente de produzir, daí a sua utilização tão intensiva na alimentação animal – que, de resto, peca pela sua grande ineficiência. Rende 314% mais proteína por hectare do que a mais eficiente (ou menos ineficiente) fonte de proteína de origem animal (frango). Ou seja, a soja necessita de muito menos recursos – e menos área – para produzir a mesma quantidade de alimento.
Caso a pergunta ainda não esteja a ecoar na tua cabeça, aqui fica: perante esta realidade, porque é que estamos a consumir proteína em segunda mão, quando podíamos ir directamente à fonte? Seria uma forma de aliviar a pressão ambiental da nossa alimentação e, claro, poupar a vida dos animais sacrificados para esse efeito.
Convém ressalvar que boa parte da soja produzida nas Américas é geneticamente modificada, com o propósito de ser tolerante à aplicação de glifosato, o herbicida que também em Portugal tem suscitado muitas preocupações. E é essencialmente esta soja que a União Europeia importa para as suas rações, uma vez que a sua produção própria só satisfaz 8% das necessidades internas.

A propósito: a produção de soja na União Europeia está altamente regulada, e não é permitida a utilização de culturas geneticamente modificadas. Na União Europeia só existe um OGM autorizado para cultivo – o milho MON810 – cultivado em Portugal e Espanha. Apesar de autorizado, a maioria dos Estados-Membros proibiu o seu cultivo.
Ou seja, quando consomes produtos à base de soja europeia, tens a garantia de que não são geneticamente modificados.
Assim sendo, podemos ilibar a soja em si, enquanto cultura, de culpas no cartório. E isto sem considerar a sua capacidade de fixar azoto no solo, da qual já falámos numa newsletter anterior, e que lhe reconhece (a par das outras leguminosas) um papel importante num sistema agrícola mais sustentável.
Arrumado o debate agrícola e ambiental, podemos seguir para outra parte igualmente interessante da discussão: saúde e nutrição.
A soja faz crescer as mamas aos homens?
O mito nasceu muito provavelmente com um artigo da “Men’s Health”publicado em 2009 nos EUA (e entretanto removido do site). Nele um antigo oficial do exército americano alegava que tinha ficado com o peito inchado e dorido ao começar a consumir leite de soja. James Price queixava-se ainda de perda de pêlo e desequilíbrio emocional. Seria a soja a razão para isso tudo estar a acontecer?
“Não é suposto os homens terem mamas. Foi como se o meu corpo estivesse a feminizar-se”, explicou Price na altura, citando ainda outras consequências: deixou de ter erecções matinais e de uma forma geral perdeu o desejo sexual.
Consultou vários médicos, que o submeteram a inúmeros testes sem chegar a qualquer conclusão. Até que um deles lhe perguntou detalhadamente o que comia ao longo do dia. Veio aí a revelação: Price bebia cerca de 3 litros de leite de soja por dia.
O senso comum diz-nos que ingerir diariamente três litros de qualquer bebida (que não água) é bastante provável de trazer algum tipo de consequência, por isso não é surpreendente que o corpo do antigo militar tenha reagido de alguma forma.
Mas o que explica concretamente o crescimento do tecido mamário?
A soja contém isoflavonas (ou isoflavonóides), que são consideradas fitoestrogénios (estrogénios das plantas). Estes compostos têm uma acção idêntica à dos estrogénios presente no nosso organismo, mas na verdade tem um baixo efeito estrogénico – e acabam inclusive por ter o impacto inverso (reduzem a acção do estrogénio endógeno). Um estudo recente confirmou, aliás, a inexistência de efeitos adversos das isoflavonas na função da tiróide, nos níveis de estrogénio, na ovulação e na produção de sémen.
Com níveis normais de consumo, a soja traz-nos uma série de benefícios associados às propriedades antiestrogénicas, anti-inflamatórias e antioxidantes das tais isoflavonas. E o que são níveis normais? Qualquer coisa entre 3 a 5 porções diárias é considerada segura (1 porção = 1 copo de bebida de soja ou 1/2 chávena de tofu).
A nutricionista Sandra Gomes Silva tem um longo artigo no seu site onde desconstrói muitos dos mitos ou controvérsias associados ao consumo de soja. Também explica em detalhe os benefícios da inclusão de alimentos à base desta leguminosa na alimentação, até na prevenção de determinadas doenças. Vale a pena a leitura – para esclarecer todas as dúvidas que ainda possas ter quanto a este tema.
De resto, do ponto de vista nutricional, a soja é um alimento que combina uma grande quantidade e qualidade de proteína, uma vez que contém todos os aminoácidos essenciais. Ao mesmo tempo, e por comparação com outras leguminosas, tem um teor elevado de gordura (sobretudo poliinsaturada e monosaturada, as chamadas ‘gorduras boas’) e um teor reduzido de hidratos de carbono.
Será que andamos a alimentar os motores errados?
Com tanto potencial para contribuir positivamente para a nutrição humana, é inevitável questionar não só a opção de transformar animais em fábricas de processamento de soja, mas também a utilização de culturas como esta para alimentar motores (biodiesel) em vez do corpo humano.
As razões ambientais para questionar esta escolha multiplicam-se, com o Parlamento Europeu a votar a proibição do óleo de soja enquanto matéria-prima para a produção de biodiesel, – uma medida que ainda está a ser negociada entre Estados-Membros. Por enquanto, o abandono do biodiesel à base de soja (e de óleo de palma) está previsto para 2030.
A equação da produção e utilização da soja é complexa de resolver. No entanto, fica claro que o problema de reputação não vem do consumo humano directo – de vegetarianos ou não-vegetarianos que incluem produtos à base de soja na sua alimentação. Seja em bebida de soja ou iogurte, tofu ou tempeh, miso, shoyu ou tamari, ou mesmo até através do mais misterioso nato, podes saborear soja à vontade.
