Natureza-morta: um olhar sobre o desperdício alimentar

Enquadramento

Natureza-morta é um projecto artístico participativo que aborda o desperdício alimentar e a consciência ambiental através da fotografia, da partilha de histórias e do envolvimento comunitário. Teve lugar na Quinta do Loureiro (Campo de Ourique), um bairro com uma história social marcada pela exclusão e pela resistência, originalmente construído para acolher antigos moradores do Casal Ventoso, e centra-se em alimentos ainda comestíveis, mas rejeitados por motivos estéticos ou comerciais, procurando questionar a linha entre o que tem valor e o que é descartado.

Este projecto foi desenvolvido pelos Kitchen Dates em conjunto com a associação DECO e com o apoio do Projecto Alkantara, da EqualFood e das Águas do Tejo Atlântico. Esta iniciativa faz parte do projecto “Feed Your Future – Engaging Youth for Creative Climate Action”, financiado pelo programa CREA EU, coordenado pelo Município de Milão e implementado por um consórcio de oito parceiros, incluindo a Rede DLBC Lisboa.

O projecto decorreu entre outubro e dezembro de 2025 e reuniu vozes e olhares de diferentes gerações do bairro, procurando criar espaço para a visibilidade, o sentido cívico e a resiliência.

Nas oficinas, as crianças, os jovens e até alguns adultos cozinharam, experimentaram ingredientes desconhecidos, ilustraram com tintas, mas também com alimentos, celebrando o acto de criar em conjunto (sobretudo panquecas!).

Paralelamente, os seniores partilharam memórias de práticas alimentares antigas, hábitos de reaproveitamento e histórias do tempo de escassez, oferecendo ao projecto a memória e a sabedoria que a experiência traz.

Este (pequeno) livro reune todas estas vozes: as mãos que cozinham e ilustram, os olhares, as memórias e tudo aquilo que foi criado. Para que em cada uma das nossas casas se possa continuar a criação.

Oficinas

Livro

Porquê o nome ‘Natureza-morta’

A escolha do nome Natureza-morta parte da tradição artística da still life, mas o projeto apropria-se do termo para lhe dar um novo significado. Nas pinturas clássicas, a natureza-morta celebrava a abundância, o exotismo, o luxo ou a ideia de tempo suspenso, com frutas perfeitas, flores exuberantes, objetos valiosos. Aqui, o conceito é invertido: o foco não está no excesso, mas no que sobra; não na opulência, mas na fragilidade; não no objeto precioso, mas no alimento que, apesar de ainda ter vida e potencial nutritivo, é tratado socialmente como se estivesse “morto”.

O nome funciona como um jogo duplo. Por um lado, sublinha o contraste entre a aparência de fim – algo prestes a ser descartado – e a realidade de continuidade, já que esses alimentos ainda são perfeitamente comestíveis. Por outro, destaca um tema central do projeto: a forma como a sociedade atribui ou retira valor às coisas (e, metaforicamente, às pessoas). O que é considerado “morto” nem sempre está morto; o que é rejeitado pode ainda alimentar; o que é invisível pode tornar-se belo quando alguém olha com atenção.

Neste sentido, Natureza-morta torna-se também uma metáfora social. Assim como estes alimentos são postos de lado apesar de manterem valor, muitas comunidades (incluindo a do bairro onde o projeto se insere) enfrentam processos semelhantes de invisibilização. Fotografar estes alimentos como se fossem pinturas de natureza-morta clássicas é um gesto simbólico de cuidado, atenção e restituição estética: devolve dignidade ao que é descartado e questiona a lógica que decide o que tem ou não tem valor.

Equipa

Maria Antunes

Maria Antunes (1987) vive em Campo de Ourique e é investigadora, formadora, gestora de projectos e co-fundadora dos Kitchen Dates. Com formação em práticas culturais e experiência em museologia, Maria procura combinar a arte com literacia alimentar e para a sustentabilidade, com o propósito de questionar paradigmas sociais e culturais.

Rui Catalão

Rui Catalão (1988) vive em Campo de Ourique e é co-fundador dos Kitchen Dates. Formado em jornalismo e com mais de 18 anos de experiência em comunicação e marketing. Actualmente dedica-se à formação e consultoria, cruzando alimentação com alterações climáticas.

Helena Loução

Helena Loução (1994) é artista multidisciplinar. Através do projecto Criatividade ao Lume, desenvolve uma pesquisa sobre criatividade e ecologia, utilizando as artes visuais e a culinária como ferramentas. Publicou um livro sobre cozinha criativa e ecológica intitulado “Cozinha com o que tens, cria com o que és”. Actualmente pinta, ilustra e cozinha sobre estas temáticas e dá formações em artes plásticas e culinária.

criatividadeaolume.com

Filipa Ventura

Filipa Ventura (1997) vive em Bremen, na Alemanha. Estudou Arte e Multimédia na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e mais tarde Fotografia Contemporânea, na mesma instituição. O seu trabalho é focado na fotografia e na exploração de som e vídeo. É co-fundadora do projeto Tique Nervoso.

filipaventura.com
tiquenervoso.com

Sara Ventura

Sara Ventura (1993) é artista plástica com prática centrada no desenho, pintura e exploração de materiais ligados à natureza, ao corpo e à memória. Cresceu no campo, em contacto direto com os bichos e com os ritmos naturais. A sua motivação para criar surge da necessidade de compreender e traduzir aquilo que sente e observa. No seu trabalho, valoriza o gesto autêntico, a emoção e o momento presente, mais do que a perfeição técnica. Vê a prática artística como um espaço de equilíbrio, de reflexão e de proximidade com os outros, consigo e com o mundo natural. É co-fundadora do projeto Tiquenervoso, onde cruza arte, ecologia e reconexão com os ciclos da vida, propondo experiências que ligam criatividade, sensibilidade e consciência.

behance.net/saraventura
tiquenervoso.com

Cláudia Soares

Cláudia Soares (1976) vive em Campo de Ourique há 17 anos. Começou por estudar design gráfico e, de forma orgânica, acabou por direccionar os seus interesses estéticos à alimentação. A partir daí, explora, concretiza ideias e pensamentos, através do desenho, da escrita, da fotografia, da cozinha e da performance com arte e comida. É cozinheira e artista multidisciplinar.

claudia-soares.com

Joana Meneses

Jasmeneses (Joana Meneses), nasceu em Lisboa no ano de 1983, e é profundamente ligada ao mundo natural. Apaixonada pelas artes, por conhecer diferentes culturas e pelos animais, construiu um percurso diverso e multidisciplinar. Estudou música, medicina veterinária, fotografia, turismo, permacultura, alimentação e agricultura regenerativa, áreas através da qual se aproximou de projetos de impacto social. Ao longo do seu percurso profissional, trabalhou em quintas pedagógicas, como médica veterinária, consultora em educação animal, e serviços administrativos. Atualmente, trabalha como guia de turismo e fotógrafa em Portugal. Movida por curiosidade e aprendizagem permanente, acredita que será uma eterna aluna!

instagram.com/jasmeneses/

João Santos

João Santos (2007) é estudante de fotografia. Nasceu e cresceu na Quinta do Loureiro e foi lá que descobriu a paixão pela fotografia.

joaoclaudiosanto.myportfolio.com/

Diogo Trabulo Martins

Diogo Trabulo Martins (1991) trabalha actualmente como jurista na DECO. Os seus interesses profissionais incluem direito do consumidor, literacia financeira e economia do comportamento. Além disso, faz trabalho voluntário para outras associações não governamentais (como a Animais de Rua), o que reflecte o seu compromisso com causas sociais.

deco.pt

Esta iniciativa faz parte do projecto “Feed Your Future – Engaging Youth for Creative Climate Action”, financiado pelo programa CREA EU, coordenado pelo Município de Milão e implementado por um consórcio de oito parceiros, incluindo a Rede DLBC Lisboa.

Organização

Agradecimentos

A equipa gostaria ainda de agradecer a todas as organizações e pessoas que ajudaram ao sucesso deste projecto:

  • Miguel Oliveira e Fernanda Santos, da DECO
  • Carolina Almeida, Margarida Fonseca, Ricardo Costa, Micaela Fernandes e Dra. Patrícia Costa, do Projecto Alkantara
  • Sara Baptista de Sousa, da Equal Food
  • Beatriz Camacho, da Junta de Freguesia de Campo de Ourique
  • Fábio Miceli, da Biblioteca Espaço Cultural Cinema Europa (que também contou que na casa da sua família chamavam “já te vi” às sobras da refeição anterior)
  • Monica Truninger, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Este projecto também não existiria sem o contributo valioso de todos os que participaram nas oficinas, desde os mais novos (que não identificamos por serem menores) aos mais velhos: Albino, Ana Rosa, Arménia, Delmira, Elisete, Henrique (Becas), Izilda, Luís, Marcelina, Maria Odete, Quitéria.

E a todas as pessoas que se disponibilizaram a tornar este projecto ainda mais relevante, um bem haja.